quinta-feira, 8 de novembro de 2012

BODE EXPIATÓRIO: DURVAL, CASEIRO

COMO OCORRE COM A MAIORIA DOS SÁTIROS. MEU NASCIMENTO PROVOCOU UMA CELEUMA. A CRIANÇA COM PATINHAS DE BODE, CUJO PARTO LEVARA À MORTE DA CABRA-MÃE, ERA VISTA COM TEMOR PELA POPULAÇÃO ILETRADA E SUPERSTICIOSA DA REGIÃO. TINHA A VER COM O 'COISA RUIM', DIZIAM À BOCA PEQUENA, BENZENDO-SE, ALGUNS.
COM O TEMPO, A COISA ARREFECEU E VIREI UM HOMEM-BODE À VISTA DE TODOS. NÃO GOSTAVA DE USAR ROUPA E CRESCI NU. OS CALÇÕES QUE ME OFERECIAM PARA VESTIR TINHAM QUE SER RECORTADOS PARA A PASSAGEM DO MEU RABO -NA VERDADE UM RABICHO, UM TUFO DE PELOS NO ALTO DO RÊGO DE MINHA BUNDA PÊLUDA.
AS ORELHAS - MAIS QUE MEUS CASCOS, MEU RABO, MEU ANDAR -, ERAM O MEU CALCANHAR DE AQUILES. O PESSOAL GRACEJAVA E ABUSAVA DAS CHULIPADAS-SURPRESA, BRINCADEIRA DE PÉSSIMO GOSTO QUE SÓ FOI INTERROMPIDA QUANDO MEUS CHIFRES BROTARAM DA TESTA. ADOREI! E ACOMPANHAVA ANSIOSO O CRESCIMENTO DAQUELE PAR DE CORNOS...
HOMEM FEITO, BONITIM, FORTE E BEM DOTADO DE FRENTE E VERSO, DEIXEI A CASA DE MEU FINADO PAI, ONDE ERA TRATADO COMO UM ANIMAL -ACREDITE, SE QUISER! FUI MORAR COM UM PROFESSOR UNIVERSITÁRIO APOSENTADO EM SEU SÍTIO. NO DIA EM QUE O CONHECI, ESTAVA SUBSTITUINDO MEU MEIO-IRMÃO ADOENTADO NA ENTREGA DOS BOLOS QUE A MÃE DELE FAZIA. INCUMBÊNCIA QUE ELA ME ENTREGOU PORQUE PRECISAVA DO DINHEIRO PARA COMPRAR OS REMÉDIOS DO FILHO AMOFINADO.
O VELHO HOMEM FICOU FASCINADO COMIGO (E QUEM NÃO FICARIA?), ME OBSERVANDO COM ATENÇÃO POR TODOS OS LADOS, ACOMPANHANDO MEU ANDAR MEIO DESEQUILIBRADO POR CONTA DOS PÉS DE BODE E TOCANDO MEUS CHIFRES CURVOS. ELE ME PROPÔS TRABALHO E, CLARO, ACEITEI. VIREI CASEIRO, RESPONSÁVEL PELA CONSERVAÇÃO DA PROPRIEDADE E POR ATENDÊ-LO DURANTE AS SUAS FREQUENTES ESTADIAS. UMA RELAÇÃO QUE LOGO EVOLUIU PARA ALGO BEM MAIS INTENSO E ÍNTIMO. E QUE VIROU, COMO DIRIA A CHRISSIE HYNDE, 'THE TALK OF THE TOWN'...

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